guia de campo do barista em casa
6 seções, 86 lições curtas. Leia na ordem que quiser — cada uma se sustenta sozinha.
Seção
O grão
Cada chávena já está meio decidida antes de moeres. Origem, processo, torra, dias desde a torra — nada disto se mexe no brewer. Aprende a ler o que o pacote já te diz e deixas de culpar a técnica pelo que o verde sempre ia fazer.
- 01 Processamento O café cresce como cereja. O grão que infundes é a semente. O processamento é tudo o que acontece entre a colheita e o grão verde seco pronto a embarcar — e é a segunda maior decisão de sabor depois da origem. Dois cafés da mesma quinta com processamentos diferentes sabem a dois cafés. 5min
- 02 Como o café é torrado Torra é a química que transforma uma semente verde em algo com gosto de café. Um grão verde é denso, vegetal e azedo — impossível de beber em qualquer sentido razoável. Aplicado o calor pelo tempo certo, ele se transforma na coisa aromática, marrom e coável que está na prateleira. Quase tudo que você prova numa xícara finalizada foi criado ou moldado durante os oito a quinze minutos que o grão passou dentro de um torrador. 8min
- 03 Níveis de torra Tostar é calor aplicado por tempo. O grão verde entra insípido e denso; sai café. Onde o tostador para o processo — medido em cor, tempo e temperatura interna — decide quanto carácter de origem sobrevive face a quanto carácter de "café tostado" toma conta. 4min
- 04 Frescura e conservação A data de torra no pacote é o número mais útil que ele traz impresso. Um pacote muda mais de sabor no primeiro mês do que em qualquer outro momento da sua vida. Comprar recente e guardar bem é o upgrade mais barato que podes fazer ao teu café. 5min
- 05 Origem Onde o café cresceu marca a chávena mais do que quase qualquer outra coisa. Solo, altitude, clima e variedade interagem durante os anos que a árvore passa na terra. Uma vez colhida a cereja, o resto da cadeia (processamento, torra, brew) só modifica o que já está lá. Não consegues meter fruta num café que não foi cultivado para a ter. 5min
Seção
Fundamentos
Rácio, moagem, água, tempo, temperatura, agitação, bloom, prova. Oito alavancas, uma chávena. Cada receita é só uma fotografia de onde alguém deixou essas alavancas — percebe como cada uma move a chávena e deixas de perseguir receitas: começas a ajustá-las.
- 01 Tamanho da moagem A primeira alavanca, e a maior delas. Antes da temperatura, antes da proporção, antes da técnica de despejo — a moagem decide quanta superfície de café encontra a água. E a superfície define o ritmo da extração. Você mexe na moagem e tudo o resto se ajusta atrás. 4min
- 02 Temperatura da água Mais quente, extrai mais rápido. Essa é toda a regra. O resto é casar a temperatura com o que você tem no pacote. 3min
- 03 Proporção café-água Uma proporção são dois números: quanto café, quanta água. Leia 1:16 como um grama de café para cada dezesseis de água. Quanto menor o segundo número, mais forte a xícara. 4min
- 04 O bloom Café fresco retém CO₂ da torra. Se você despeja toda a água de uma vez, esse gás empurra a água e a extração fica irregular. O bloom é um primeiro despejo pequeno que deixa o gás sair antes do trabalho de verdade. 4min
- 05 Técnica de despejo Como a água entra no leito é metade da receita. Mesmo café, mesma moagem, mesma proporção — três técnicas de despejo te dão três xícaras diferentes. 3min
- 06 Fases do brew Qualquer pour-over são quatro fases, na mesma ordem, sempre. Saber o que cada fase faz é a diferença entre seguir uma receita e ler o que está acontecendo na sua frente. 3min
- 07 Famílias de cafeteira As cafeteiras se dividem em três famílias pelo modo como a água encontra o café. Cada família tem um caráter. Saber em qual família a sua se encaixa te diz que tipo de xícara esperar — e que erros são fáceis de cometer. 4min
- 08 Ler a xícara Sua língua é a ferramenta de diagnóstico mais precisa que você vai ter. A parte difícil não é provar — é nomear o que você prova, e saber qual alavanca mexer em seguida. 5min
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Métodos
Um brewer é uma restrição, não uma ferramenta. A V60 premeia o controlo do fluxo, a French press premeia a paciência, a AeroPress troca volume pelo domínio de todas as variáveis. Escolhe pelo que cada um te facilita provar — clareza, corpo, textura — não pelo que parece bonito numa prateleira.
- 01 Filtro vs imersão Cada brewer cai num lado ou noutro de uma linha única. Os de filtro (V60, Kalita, Chemex, Origami) fazem a água passar *através* da cama. Os de imersão (French press, Clever, cold brew) deixam a água *estar* com o café e depois drenam. A AeroPress é um híbrido que te dá as duas coisas, conforme a usares. 3min
- 02 V60 O brewer cónico da Hario é o design mais copiado no café moderno, e por boa razão: 60° de ângulo, costelas profundas e um furo grande formam um brewer que não restringe o caudal de todo. O que retém a água é a cama de café, não o aparelho. Isso transforma a moagem e o teu despejo nas únicas variáveis reais. 4min
- 03 Kalita Wave Onde a V60 te dá um cone profundo e saída livre, a Kalita Wave faz o oposto: cama plana, três furos pequenos e papel ondulado que se sustenta sozinho longe das paredes. O brewer restringe o caudal de propósito. O controlo divide-se entre o café e o aparelho. 4min
- 04 Chemex A Chemex é mais conhecida pela silhueta de ampulheta, mas a sua assinatura real está no papel. Os filtros bonded da Chemex são 20–30% mais grossos do que os de pour-over comuns — retêm mais óleos, mais finos e abrandam o caudal de forma notável. O brewer é um recipiente; o filtro faz o trabalho. 4min
- 05 Origami O dripper Origami é um cone de cerâmica dobrado com 20 estrias verticais, desenhado para aceitar tanto um filtro cónico de V60 *como* um papel plano de Kalita Wave. Um brewer, duas geometrias — por isso baristas de competição acabam aqui. 4min
- 06 AeroPress A AeroPress é um cilindro de plástico, um êmbolo e um filtro de papel — vendida como brewer de viagem em 2005 e rapidamente adotada por gente que nunca viajaria com uma. O seu truque é estar em cima da linha entre filtro e imersão. Fechada por baixo pelo filtro e pelo apoio, é um brewer de imersão. Quando pressionas, água e café separam-se rápido. O leque de moagem que aceita é enorme e a chávena sai limpa mas com corpo. 5min
- 07 Clever e Switch Os dois resolvem o mesmo problema: *e se pudesses repousar como numa French press, mas drenar através de um filtro de papel?* O Clever Coffee Dripper tem uma válvula acionada por gravidade no fundo — fica fechada até pousares o brewer numa chávena, e a borda da chávena abre-a. A Hario Switch é uma V60 com válvula manual. Mesma ideia, mecanismo diferente. 4min
- 08 Cold brew O cold brew é o primo lento do café de filtro. Pões café e água fria (ou à temperatura ambiente) num recipiente, deixas 12–24 horas e depois coas. Sem calor, sem despejo, sem agitação. O tempo substitui a temperatura como alavanca de extração. 4min
- 09 French press A French press é a expressão mais limpa da ideia de imersão: café moído, água quente, uma malha de metal e tempo. A malha retém tudo o que é maior do que ~150 micra; tudo o que é mais pequeno — finos e óleos — passa para a chávena. Essa decisão de design é o que dá carácter à French press. 4min
- 10 Cafeteira moka (italiana) A Bialetti patenteou a moka em 1933 e o design quase não mudou desde então. Uma câmara inferior com água, um cestinho com café moído, uma câmara superior que recebe o brew. Pões a base ao lume; a pressão sobe na câmara inferior à medida que a água aquece; a pressão do vapor empurra água quente pelo cestinho até à câmara de cima. É um brewer de pressão de fogão, não espresso — o tecto de pressão ronda os 1,5 bar, onde uma máquina de espresso trabalha a 9. 5min
- 11 Japanese iced (flash brew) A forma mais rápida de um café frio de alta qualidade é também a mais contra-intuitiva: brewar uma V60 quente directamente sobre gelo. Flash brew (também chamado Japanese iced ou iced de Tetsu Kasuya, pelo campeão do WBrC 2016 que o popularizou) substitui parte da água do brew por gelo na jarra. O brew quente cai pela cama como sempre, e depois arrefece instantaneamente ao tocar no gelo — bloqueando os aromáticos voláteis na chávena antes que se evaporem. 4min
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Técnicas
A receita diz o quê; a técnica decide o como. Onde cai a água, a que velocidade, quão quieto deixas o slurry, o que tens na chaleira — os mesmos números em duas mãos sabem a dois cafés diferentes. Dez gramas de atenção valem mais do que dez gramas de equipamento novo.
- 01 Padrões de despejo Onde colocas a água sobre a cama decide como a cama extrai. Há três padrões que vale a pena conhecer — centro, espiral e pulso — e não são intercambiáveis. 4min
- 02 Estratégias de bloom O bloom é onde os Fundamentos encontram a receita. Os Fundamentos dão o *porquê*; aqui vai o *quanto* e o *como*. 4min
- 03 Agitação Agitação é tudo o que fazes que move a água *através* do café em vez de simplesmente colocar água *em cima*. É a alavanca menos discutida no pour-over e a mais fácil de abusar. 5min
- 04 Drawdown O drawdown é o período após o teu último despejo em que a água sai da cama mas já não estás a adicionar mais. É onde se faz quase todo o diagnóstico — a cama revela o que o teu despejo fez e os tempos dizem-te se a moagem está bem. 5min
- 05 Mineralidade da água O café é 98–99% água. O que a água carrega, o café mostra. A maioria de quem prepara café em casa gasta centenas em moinhos e cêntimos em água — está ao contrário. 5min
- 06 Re-prova A maioria prova um café uma vez, decide o que é e não volta. Assim constrói-se um paladar estático. Re-provar — voltar ao mesmo café duas ou três vezes ao longo de uma semana — é como se aprende mesmo um café. 4min
- 07 Escalar receitas Uma receita que vai bem para uma chávena nem sempre vai bem para duas. As contas dizem que sim — o dobro do café, o dobro da água, mesmo ratio. A chávena diz que não, e há razões. 3min
- 08 Canalização Canalização é quando a água encontra um caminho único pela cama e o usa para saltar a maior parte do café. A chávena sabe vazia, ácida e sub-extraída — mas a cama *parece* ter sido brewada. É o problema mais resistente ao diagnóstico no pour-over porque os tempos muitas vezes parecem corretos. 5min
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Cupping
Não fazes cupping para preparar melhor — fazes para provar com honestidade. A mesma moagem, as mesmas tigelas, os mesmos quatro minutos de infusão, sempre. Tira a maquilhagem do brewer e finalmente vês o café como é: lado a lado, este lote contra o da semana passada.
- 01 Por que importa o cupping O cupping é o protocolo de prova padronizado que a indústria do café de especialidade usa para avaliar cafés. Foi codificado pela Specialty Coffee Association nos anos 90 e é o método por trás de cada pontuação numa saca de origem única, cada decisão de compra de café verde, e cada competição. Ao contrário dos métodos de preparação no resto da app, o cupping não foi desenhado para produzir uma chávena agradável. Foi desenhado para produzir uma chávena *comparável*. 4min
- 02 O protocolo SCA O protocolo de cupping da Specialty Coffee Association é a língua franca da avaliação de café. Foi publicado no início dos 2000 e foi a base de cada pontuação, cada exame Q-grader e cada competição até novembro de 2024 (quando foi substituído pelo CVA 2024 — coberto no próximo artigo). O protocolo de 2004 ainda importa: é a versão com que a maioria dos torrefatores se treinou e a que verás referenciada por todo o lado. 4min
- 03 O padrão CVA 2024 Em novembro de 2024 a SCA substituiu o seu protocolo de cupping de 2004 pelo **Coffee Value Assessment (CVA)**, publicado como Padrão 102-2024. É a mudança mais consequente do cupping em vinte anos. A maior parte da mecânica mantém-se; o que muda é como pontuas e o que as pontuações significam. 4min
- 04 Cupping em casa Não precisas de certificado Q-grader para fazer cupping. Três tigelas e uma balança de cozinha ensinam mais numa tarde do que um ano de preparação casual. A ideia não é pontuar; é *comparar*. 4min
- 05 O teste triangular O teste triangular é um exercício de discriminação: três tigelas idênticas, duas de um café e uma de outro, apresentadas às cegas. O provador tem de identificar qual é a diferente. Não é sobre preferência nem pontuação — responde a uma única pergunta: *consegues mesmo distinguir estes dois cafés?* 3min
- 06 Apontar para um alvo de TDS Quando tens um refratómetro, o cupping deixa de ser puramente sensorial. Podes medir a concentração real da infusão (TDS, sólidos dissolvidos totais) e usar isso para calcular o rendimento de extração. O protocolo de Barista Hustle é o padrão mais citado para isto — aponta para **1.4% TDS** aos 8 minutos do vertido, com rácio fixo de 11 g / 200 ml. 5min
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Glossário
O vocabulário que o café de especialidade usa de verdade. Cada termo é uma página curta: o que significa, por que aparece e como muda a xícara. Sem ensaios longos; quando um termo merece um artigo inteiro, ele vive em outra seção e este aponta para lá.
- 01 Adstringência Sensação seca e enrugada na língua e nas bochechas — a mesma que caqui verde ou chá preto forte deixa para trás. Não é amargor e não é acidez. É um defeito tátil, não um sabor, causado por polifenóis que se ligam às proteínas da saliva. 2min
- 02 Bypass Água que chega à xícara sem passar pelo leito de café. Num coado, é a água despejada contra a parede do dripper que escorre direto pelo filtro sem tocar a borra — diluindo o café já extraído no caminho até o jarro. 2min
- 03 Slurry O leito molhado de café moído e água que se forma dentro do dripper durante um coado. Não é o pó seco, não é o líquido já filtrado embaixo — é a mistura turva e rodopiante do meio. 1min
- 04 Chaleira gooseneck Chaleira com bico longo, estreito e curvado em S que permite despejar um filete fino e controlado exatamente onde você mira. A forma deve seu nome ao pássaro — o bico sai do corpo, curva para a frente e se afina como o pescoço de um ganso. 2min
- 05 WDT (Weiss Distribution Technique) Etapa pré-extração em que você revolve o leito de café seco com uma ferramenta fina — uma agulha, um fio, um clipe esticado — para quebrar grumos antes da água tocar o pó. Leva o nome de John Weiss, o entusiasta de espresso que popularizou a técnica como forma de corrigir distribuição irregular em portafiltros. 2min
- 06 Extração O ato de dissolver compostos do café moído na água. O café torrado é cerca de 30 % solúvel — a massa máxima que a água pode extrair em teoria antes de sobrar só celulose seca. O café coado de especialidade mira em **18–22 %** dessa massa de fato extraída, a janela onde a xícara fica equilibrada. 2min
- 07 Força (concentração) Quão concentrado o café preparado está — medido como **TDS** (sólidos dissolvidos totais), a porcentagem de massa de café dissolvido por grama de líquido na sua xícara. Um café coado típico cai entre **1,20 % e 1,50 %** de TDS. O espresso vive em 8–12 %. 1min
- 08 TDS (Sólidos Dissolvidos Totais) A porcentagem de massa de café dissolvido por grama de líquido na sua xícara coada. **1,30 %** de TDS significa que há 1,3 gramas de compostos do café dissolvidos em cada 100 gramas de líquido. É o número que quantifica o que sua língua chama de "força". 1min
- 09 Imersão Abordagem de preparo onde o pó de café fica *totalmente submerso* na água por um tempo definido antes do líquido ser separado do leito. O oposto da percolação, onde a água passa *através* do leito continuamente. 2min
- 10 Percolação Abordagem de preparo onde a água passa *através* do leito de café continuamente e sai como líquido extraído quase imediatamente. Todo coado é percolação: V60, Chemex, Kalita, Origami, Orea, Tricolate. O espresso também é percolação, só que sob nove bares de pressão. 2min
- 11 Embaçamento (muddying) Sintoma específico de superextração onde a xícara perde clareza e fica espessa, opaca e indiferenciada. A acidez colapsa, os aromáticos que deveriam estar no topo silenciam, e o que sobra é torra pesada e papelão. O grão para de soar como ele mesmo. 1min
- 12 Finos As menores partículas produzidas quando você moe café — tipicamente abaixo de 100 microns. Todo moedor produz finos, mesmo os melhores. A questão não é se eles existem; é quantos você tem e quão uniformemente estão distribuídos pelo leito. 1min
- 13 Boulders (pedras) As maiores partículas num leito de café moído — nome informal para os pedaços que as mós não terminaram de quebrar. O oposto dos finos. Visíveis a olho nu na maioria das moagens caseiras: pedacinhos tipo cascalho ao lado das partículas médias. 1min
- 14 Mós (burrs) As duas rodas de corte dentro de um moedor de café que fraturam os grãos até um tamanho de partícula alvo. Ficam muito perto uma da outra, com a folga calibrada em frações de milímetro, e o grão precisa passar entre elas para sair como pó moído do outro lado. 2min
- 15 Desgaseificação A liberação do CO₂ aprisionado dentro dos grãos de café torrados. A torra produz gás como subproduto da reação de Maillard; esse gás escapa lentamente pela estrutura celular do grão ao longo dos dias e semanas após a torra. O café está se desgaseificando o tempo todo enquanto está no pacote. 2min
- 16 Dias após torra (off-roast) O número de dias passados desde que um café foi torrado. Pacotes de especialidade costumam imprimir uma data de torra em vez de uma data de validade, e um café "no dia 14 off-roast" foi torrado há exatamente duas semanas. 1min
- 17 Clareza Atributo de xícara que descreve quão distintamente os sabores individuais aparecem. Uma xícara clara permite que você prove cada nota como algo separado — cítrico *e* floral *e* malte *e* final — em vez de um borrão marrom homogêneo. O oposto do embaçado. 1min
- 18 Corpo O peso tátil do café na boca — o que faz uma xícara parecer leite desnatado e outra parecer creme. Corpo é independente de sabor e de força; você pode ter uma xícara forte e de corpo leve, e uma fraca e de corpo pesado. 1min
- 19 Acidez A qualidade brilhante e viva no café que te faz salivar — análoga à acidez de uma maçã verde, uma fruta cítrica ou uma taça de vinho branco fresco. No café de especialidade, a acidez é uma virtude, não um defeito. É o que separa uma xícara com gosto vivo de uma com gosto chato. 2min
- 20 Primeiro crack (first crack) O *pop* audível que um grão de café faz durante a torra quando a umidade interna evapora de uma vez e força sua saída, fraturando a estrutura do grão. Soa como pipoca muito suave — mais quieto, mais seco, mais parecido com estalar dedos do que milho estourando. Acontece por volta de **196–205 °C** de temperatura do grão, dependendo do grão e do torrador. 1min
- 21 Segundo crack (second crack) Um segundo evento audível de craqueamento durante a torra, em torno de **224–230 °C** de temperatura do grão, quando a estrutura de celulose do grão quebra ainda mais e os óleos começam a migrar para a superfície. O som é mais alto, mais afiado e mais frequente que o primeiro crack — mais parecido com o estalo de palitos de fósforo se quebrando. 1min
- 22 Defeitos de torra Falhas específicas de sabor que vêm de como um café foi torrado, não do grão verde em si. Reconhecíveis pela consistência: todo pacote de um torrador cometendo o mesmo erro vai compartilhar o mesmo defeito, independente da origem. 2min
- 23 Defeitos do café verde Defeitos presentes no grão de café cru (verde) que nenhuma torra consegue resgatar. Os sistemas de classificação de especialidade existem precisamente para contar isso — Q-grade e SCA pontuam um café em parte por quantos defeitos contém por quilo. 2min
- 24 Sifão (vacuum pot) Um brewer de duas câmaras que usa a pressão de vapor do calor para empurrar a água para cima até o leito de café, depois vácuo para puxar o líquido extraído de volta para baixo por um filtro. Também escrito *syphon*. É visualmente dramático — a água levita entre câmaras de vidro — e funciona por princípios físicos simples. 2min
- 25 Refratômetro Um pequeno aparelho portátil que mede o índice de refração do café preparado — quanto o líquido desvia a luz — e converte isso numa porcentagem de **TDS**. Você pluga o TDS, a água de preparo e a dose numa calculadora de extração e obtém o **rendimento de extração**: a porcentagem de massa do grão que de fato se dissolveu na sua xícara. 1min
- 26 Razão de bypass A porcentagem da água total de preparo que não passou pelo leito de café — água que escorreu pela lateral do filtro, ou água adicionada direto na xícara servida, sem nunca tocar a borra. Um preparo com 0 % de bypass tem cada gota interagindo com o pó. Um com 30 % de bypass tem 30 % da água chegando na xícara como água quente pura que só dilui o resto. 1min
- 27 Café de especialidade Uma categoria — não só um rótulo de marketing — definida por uma pontuação mensurável da xícara. A Specialty Coffee Association estabelece o limiar: um café que pontua **80 ou mais na escala de cupping de 100 pontos** pode se chamar de especialidade. Abaixo de 80, é comercial. 2min
- 28 Terceira onda do café (third wave) O movimento cultural e comercial que reposicionou o café de bebida commodity para produto artesanal, começando aproximadamente no fim dos anos 90 e cristalizando ao longo dos 2000. O nome empresta da cerveja e da cultura gastronômica, onde cada "onda" descreve uma virada análoga em direção a procedência e qualidade. 2min
- 29 Despejo em pulsos (pulse pour) Técnica de coado onde você divide a água total em vários despejos discretos separados por pausas curtas. O leito drena parcialmente entre cada pulso — o nível de água cai aproximadamente até a superfície da slurry — e então você despeja de novo. Formatos comuns: 4 pulsos, 5 pulsos, às vezes 6. 1min
- 30 Despejo contínuo (continuous pour) Técnica de coado em que, depois do bloom, você mantém um único filete estável sobre o leito sem parar até atingir o peso alvo. O oposto do despejo em pulsos. O nível de água sobre a slurry sobe, estabiliza e então drena junto no final. 1min
- 31 Swirl (giro) Técnica de agitação específica onde você segura o brewer (ou seu jarro) e gira em um movimento circular rápido para redistribuir a slurry sem quebrar a estrutura do leito. Mais comumente usada logo depois do bloom ou após cada pulso numa receita de despejo em pulsos. 1min
- 32 Pré-infusão Uma fase inicial breve de contato com água antes do início da extração principal. O pó é molhado com uma pequena quantidade de água, então deixado descansar por alguns segundos para que absorva água, inche e libere CO₂ antes do grosso da água de preparo chegar. 1min
- 33 Puck (bolo de café usado) O disco de pó usado que sobra no brewer no fim de um preparo. A palavra vem do espresso — onde o bolo compactado e úmido em forma de disco de hóquei é o objeto físico literal que você bate fora do portafiltro — mas hoje se usa também para café coado. 1min
- 34 Notas de degustação (tasting notes) Descritor curto num pacote de café — "**mirtilo, chocolate amargo, açúcar mascavo**" — feito para te dizer que sabores você deve esperar encontrar na xícara. Torrefadores escrevem com base em cuppings desse lote específico. São uma *previsão*, não uma garantia, e se leem melhor como andaime de vocabulário do que como menu literal de sabor. 1min
- 35 Variedades (varietals) As variedades botânicas de *Coffea arabica* — como variedades de uva para vinho ou de maçã para cidra. Dois cafés da mesma fazenda, processados do mesmo jeito, terão gosto diferente se forem variedades diferentes. Pacotes de especialidade frequentemente imprimem a variedade ao lado da origem e do processamento. 2min
- 36 Altitude (elevação) A altitude (em metros acima do nível do mar, MASL) em que um café foi cultivado. Pacotes de especialidade imprimem isso com frequência — "1.800 MASL", "1.950 MASL" — porque a altitude é um dos indicadores mais fortes da qualidade de xícara em arábica. 2min
- 37 Atividade de água Uma medida da água *disponível* dentro de um grão de café — água livre o suficiente para participar de reações químicas, crescimento microbiano e perda aromática. Escrita **Aw**, numa escala de 0 a 1 onde 1 é água líquida pura e 0 é completamente seco. 2min
- 38 Single origin (origem única) Café que vem de um único lugar identificável. A precisão exata de "um lugar" varia conforme o uso: 1min
- 39 Blend (mistura) Café feito combinando grãos de duas ou mais origens, variedades ou curvas de torra num único pacote. O oposto do single origin. Bem feito, blendar cria uma xícara maior que suas partes — doçura de um componente, corpo de outro, brilho de um terceiro. Mal feito, é uma forma de esconder café de baixa qualidade dentro de um mais interessante. 1min
- 40 Microlote (microlot) Um pequeno lote de café processado separadamente, de uma única fazenda — tipicamente alguns poucos centenas de quilos no máximo — mantido apartado da produção maior porque se espera que pontue mais alto em qualidade de xícara. Microlotes são a forma como torradores de especialidade acessam os cafés mais distintivos que uma região produtora tem a oferecer. 1min
- 41 Dose A quantidade de café seco — medida por peso em gramas — que você coloca no brewer para um único preparo. O ponto de partida de toda receita. "Use uma dose de 15 g" significa que você vai moer 15 gramas de grãos antes da água tocar em qualquer coisa. 1min
- 42 Comércio direto (direct trade) Modelo de aquisição em que um torrador compra café verde diretamente do produtor — fazenda, cooperativa ou grupo de produtores — sem intermediários do mercado commodity definindo preço ou termos. O torrador tipicamente visita a fazenda, conhece o nome do produtor e negocia um preço atrelado à qualidade de xícara, não ao mercado de futuros (C-market). 2min
- 43 Comércio justo (Fair Trade) Padrão de certificação que garante um piso mínimo de preço para o café verde, independente de onde o C-market (mercado de futuros) esteja. Criado no final dos anos 80, formalizado pela Fairtrade International em 1997, e hoje visível na maioria das prateleiras de supermercado através do logo redondo Fairtrade Mark. 2min
- 44 Descafeinado (decaf) Grãos de café aos quais foram removidos cerca de 97-99% da cafeína antes da torra. O grão ainda tem gosto de café — a maioria dos compostos de sabor não é cafeína — mas não vai te manter acordado à noite. Decafs de especialidade melhoraram drasticamente na última década conforme os processos de descafeinação se aprimoraram. 2min
- 45 Crema A camada avermelhada-marrom de espuma que repousa sobre um espresso recém-tirado. Feita de CO₂ aprisionado dentro de uma suspensão coloidal de óleos microscópicos de café, melanoidinas e compostos dissolvidos. A crema só ocorre sob pressão — coados e imersões não a produzem porque não extraem a nove bares. 1min
- 46 Portafiltro (portafilter) O suporte de cesto com cabo metálico que se trava no cabeçal de grupo de uma máquina de espresso. O barista moe o café dentro do cesto, tampa, trava o portafiltro na máquina e a água é forçada por baixo de pressão para fazer espresso. Sem portafiltro, uma máquina de espresso é só uma chaleira. 1min
- 47 Tamping (compactar) O ato de pressionar o café moído no portafiltro de espresso até formar um puck plano, nivelado e compactado uniformemente antes de travar o portafiltro na máquina. Sem tamping, o leito tem bolsas de ar e densidade irregular; a água pressurizada encontra o caminho de menor resistência, canaliza e extrai de forma desigual. 1min
- 48 Moedor manual (hand grinder) Um moedor de café acionado por manivela em vez de motor elétrico. Coloque a dose no funil, gire um botão para ajustar o tamanho de moagem, encaixe a manivela e gire até a câmara esvaziar. Moedores manuais de especialidade usam as mesmas mós cônicas ou planas que os elétricos — não são um compromisso na qualidade da moagem, só na velocidade e esforço. 2min